Jogos de aponte e clique. Pouca interatividade, mas muito carisma!

Antigamente, havia uma separação bem clara entre os jogos eletrônicos: os videogames tinham como público-alvo as crianças e adolescentes, enquanto os computadores tinham jogos destinados a um público mais adulto, abordando temas mais sérios, enfatizando a narrativa ou tendo games mais violentos. Evidentemente, havia exceção para ambos os lados, mas este padrão só foi quebrado com a geração 32-bits e a chegada do PlayStation, que passou a ter jogos focados neste público.

Nessa época, um tipo de jogo que fazia muito sucesso nos PCs eram os do gênero “Adventure”, também conhecido por nós como aponte e clique que, até os dias de hoje, tem uma significativa legião de fãs. Como os games não tinham muita interatividade, já que você simplesmente “apontava e clicava” no cenário para resolver enigmas, os desenvolvedores sempre procuraram compensar com visuais de ponta, que na época eram bem superiores aos jogos para consoles, colocavam minigames explorando outros gêneros, como apostas em cassinos, além de procurar enfatizar a narrativa, com personagens carismáticos e interessantes.

Origem do nome

O primeiro jogo de “ficção interativa” se chamava Colossal Cave Adventure lançado em 1977 para os computadores da época. Acredita-se que foi deste sufixo que o nome do gênero foi definido.

Foi desenvolvido por Will Crowther com a ajuda de Don Woods, e ele era uma aventura completamente baseada em textos, onde as ações do jogador que ditavam para qual caminho o personagem iria seguir. Basicamente, algo era escrito na tela, e você tinha que digitar o que o personagem ia fazer naquela situação.

Devido ao pioneirismo, este game é considerado um dos mais influentes da indústria. Graças a ele veio o nome que definiu os aponte-e-cliques mais tarde; foi o primeiro game de ficção interativa como dito anteriormente; o primeiro a ter uma história elaborada, inspirando também o gênero RPG; sua adaptação para o Atari 2600 foi uma tentativa de fazer o jogo “em gráficos”, sendo o primeiro jogo de fantasia dos videogames; e inspirou o desenvolvimento de jogos de multiplayer online, na época os MUDs, sendo o precurssor dos MMOs atuais.

Sierra e os primórdios do gênero

A primeira empresa a surgir no mercado focada exclusivamente em desenvolver jogos do gênero de aponte e clique foi a Sierra. Fundada em 1979 por Ken Williams sob o nome de On-Line Systems, ele era um programador da IBM e sua esposa, Roberta Williams, era dona de casa fã dos jogos de aventura em texto (em especial o Colossal Cave Adventure citado anteriormente) para o antigo Apple II.

Apesar de gostar, ela estava insatisfeita em interagir apenas com textos e achava que seria uma boa ideia que os jogos tivessem gráficos que mostrassem o que estava acontecendo, e o próprio Apple II poderia realizar este desejo dela. Em uma conversa informal com o marido, ele acabou acatando a ideia, ambos fundaram a empresa, e o primeiro game da dupla foi Mystery House, lançado em 1980.

Roberta se inspirou no clássico da Agatha Christie “E não sobrou nenhum” para desenvolver a história, que ficou pronta em três semanas, e ela mesma desenvolveu as artes para o game. Já seu marido, ficou com a parte de implementação dos gráficos e da interatividade com o jogador.

Ele ainda era uma aventura “em texto”, mas tinha desenhos que mostravam o que estava acontecendo. Sucesso de público e crítica na época, ele foi considerado um dos jogos mais inovadores dos PCs, e vendeu cerca de 100 mil cópias, bem impressionante para 1980.

Já o primeiro game que teve gráficos coloridos, animações e a interação com o cenário foi o King´s Quest lançado em 1984, também da dupla. Sendoconsiderado uma “evolução gigantesca” em sua época, ele foi o primeiro jogo a contar com animações. No ano seguinte, uma outra empresa, a ICOM Simulations, desenvolveu um game chamado Déjá Vu se aproveitando de diversas ideias dos jogos da Sierra, mas sendo o primeiro onde você “apontava e clicava”.
Entre os games mais famosos ao longo de sua trajetória ficaram as séries “Quest”: King, Space e Police; Gabriel Knight, Leisure Suit Larry e Quest for Glory.

LucasArts para rivalizar com a Sierra

Já os primórdios do que veio a ser a LucasArts, uma outra empresa que ficou famosa pelos jogos Adventure, surgiu em 1979 sob o nome de Lucasfilm Computer Divison, realizando um desejo do George Lucas de explorar outras áreas de entretenimento além do cinema.

Nela, havia duas divisões: uma focada no desenvolvimento de jogos, e outras no desenvolvimento de gráficos em computadores, sendo que eventualmente as duas equipes passaram a ser estúdios diferentes, sendo que o primeiro virou a Lucasfilms Games e este último se transformou no que hoje conhecemos como Pixar.

Já seu primeiro aponte e clique foi o jogo Labyrinth de 1986, baseado em um filme de mesmo nome. No ano seguinte veio o primeiro grande sucesso, o Maniac Mansion, que utilizava a engine SCUMM, usada por diversos games da empresa que vieram depois.

Com seus jogos fazendo muito sucesso durante a segunda metade dos anos oitenta e a primeira da década de noventa, uma inevitável rivalidade com a Sierra se iniciou. A empresa de Ken e Roberta Williams era conhecida pela ênfase maior nos diálogos e na história, enquanto a de George Lucas ficou conhecida por enfatizar a solução de enigmas.

Entre os jogos mais bem sucedidos da empresa ao longo de sua trajetória estão os jogos da série Monkey Island, The Dig, Grim Fandango, Full Throttle, e dois jogos de Indiana Jones.

Do mainstream para uma pequena e dedicada fanbase

Como dito anteriormente, os games entraram em decadência na segunda metade dos anos noventa devido a pouca interatividade, já que os consoles da era 32 bits passaram a focar em um público mais velho, e tinham jogos com boas histórias, visuais “de ponta” e muita interatividade, algo que este gênero carecia.

Some isso ao fato de que os computadores da época passaram a ter diversos jogos de FPS, como Duke Nukem 3D, Doom e Half-Life, e o gênero passou a não ser mais o foco, levando ao encerramento de lançamentos tanto pelo lado da LucasArts quanto da Sierra. Era o fim de uma era.

Só que enquanto houver jogadores, haverá jogos! Eventualmente os games foram revitalizados em novos estilos, como os títulos da Telltale que tinham histórias em formatos episódicos e forte inspiração no gênero, além de diversos desenvolvedores independentes que passaram a lançar games deste gênero.